quinta-feira, 30 de abril de 2009

Folha de S.Paulo dá início a mudança editorial

Com o objetivo de dar início a uma mudança editorial, o diretor de redação da Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho, e a editora-executiva, Eleonora Lucena, enviaram e-mail à redação para apresentar as diretrizes que vão “nortear as ações na produção e edição da Folha”. O jornal terá que trazer “informação exclusiva”, ampliar “a carga de interpretação e análise” e ser “conciso e claro”.
“Com esse projeto - que será desdobrado em várias medidas práticas -, busca-se reforçar os pilares do Projeto Editorial: praticar um jornalismo plural, crítico, apartidário e independente”, escrevem os dois na mensagem enviada na semana passada.

Conheça as diretrizes para a realização da mudança editorial:

1. Organizar a pauta selecionando mais os assuntos e priorizando as abordagens exclusivas dos fatos de relevo. Buscar o furo como prioridade máxima. Ter um planejamento de médio e longo prazo para desenvolvimento de pautas mais abrangentes;

2. Na produção, cuidar para ampliar o número de fontes, buscar o contraditório e sempre entender o contexto e os interesses que cercam a notícia. Não hesitar em pautar histórias que revigorem o prazer da leitura;

3. Na elaboração dos textos, trabalhar com concisão e didatismo. Observar a necessidade de a redação ter: a) frases e parágrafos curtos (máximo de 10 linhas justificadas), b) uso de aspas apenas quando houver relevância ou quando declaração for curiosa; c) emprego de números e cifras com mais critério, lembrando sempre de relacionar a parte e o todo, d) preocupação com as nuances, os matizes de argumentos e fatos, fazendo relatos com fidelidade, sem tentar enquadrá-los em categorias preconcebidas, e) a memória do caso e suas interrelações, f) narração clara e fácil, evitando jargões; g) conexão com a vida prática dos leitores;

4. Na edição, ter a preocupação de oferecer um produto mais compacto e integrado, sem reduzir espaço reservado a artes e fotos. É necessário reforçar a hierarquia nas páginas. Ajuste gráfico em curso auxiliará nessa tarefa. É preciso dar visibilidade ao “outro lado” e usar com mais frequência recursos como: a) “análise”, b) “perguntas e respostas” / “para entender o caso”,
c) “quem ganha e quem perde”, d) “saiba mais”, e) “e eu com isso?”.

[reproduzido na íntegra, inclusive título, do site Comunique-se]

Delúbio Soares: campanha na internet pede sua volta ao PT

O ex-tesoureito do PT, Delúbio Soares, está em campanha para voltar ao partido. Mas o blog "Companheiro Delúbio", fazendo campanha pela sua volta, está causando mal-estar no partido ao expor o nome de apoiadores, segundo matéria da Folha Online. Delúbio foi expulso do PT em 2005 em meio ao "escândalo do mensalão". Alguns dos listados sob a rubrica "Galeria de apoiadores", depois mudada para "Companheiros petistas" negaram que tivessem autorizado o uso de seus nomes; outros dizem que votariam a favor da volta de Delúbio, mas são contra uma campanha pública.

A farra das passagens: um escândalo democrático

João Alfredo, vereador pelo Psol, publicou nota paga na edição de hoje [30/4/2009] do O POVO, na pág. 23 [só dá para ler na versão digital] explicando e desculpando-se pelo uso da sobra de créditos de passagens aéreas no período em que ele foi deputado federal. Escreve o vereador: "Recebi, como todos os e ex-deputados não reeleitos, créditos de passagens já pagas às empresas aéreas não utilizadas [sic] [...]. Aqui se encontram os erros cometidos pela Câmara: o pagamento dessa 'sobra' de crédito às empresas aéreas e a entrega desses mesmos créditos a serem utilizados. Isso não me exime - quero deixar bem claro - de minha respnsabilidade. Mesmo tendo sido informado que não se devolviam os créditos - já pagos adiantamente, repito - minha atitude deveria ter sido a de devolvê-los à Câmara, para que ela pudesse se ressarcir desses gastos." A nota prossegue com o vereador explicando que está devolvendo os valores gastos, etc.

Pode-se dizer tudo dessa crise, mas uma coisa é certa: foi o escândalo mais democrático que se viu até hoje. Atingiu quase todas as siglas da Câmara, de A a Z; da esquerda à direita, passando pelo centro; do alto ao baixo clero.

Lula, o filho do Brasil

Um trailer de 8 minutos do filme Lula, o filho do Brasil, que deve estrear em 2010, iria ser apresentado no Cine PE, que vai até domingo, em Recife. Dei uma olhada na página do festival e não o vi na programação. Mas alguns novidades vão chegando. O cine Click divulgou esta semana fotos da filmagem do casamento de Lula [Rui Ricardo Diaz] e Lourdes [a primeira mulher dele, interpretada por Cléo Pires]. O diretor do longa, Fábio Barreto, garante que estará no Oscar. "Trago a estatueta", disse. Por enquanto, a foto e o trailer de pouco mais de dois minutos que está rodando no YouTube.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pânico tem endreço "roubado" no Twitter

Alguém descobriu a senha e "roubou" o endereço do programa Pânico [rádio Jovem Pan] no Twitter. O endereço "programapanico" já estava com mais de 3 mil seguidores quando foi "expropriado". A equipe do programa criou um novo endereço, o "panicooficial", que já está com mais de 800 seguidores [13h07min, de 29/4/2009].
O fato pode ser verdade, como pode ser mais uma das presepadas do programa, que costuma inventar factóides para bombar a audiência.

Reino Unido proíbe anúncio

Autoridades do Reino Unido proibiram anúncio de televisão da fundação Women's Aid. No filme, a atriz Keira Knightley [de Piratas do Caribe] apanha do namorado depois de voltar de uma filmagem. Chamado de "Cut" [corta], o anúncio faz um alerta sobre a violência doméstica e termina com a pergunta: "Já não é hora de alguém gritar 'corta'"? Segundo as autoridades do Clearcast, entidade responsável pela supervisão dos conteúdos publicitários no Reino Unido, o filme dirigido pelo cineasta britânico Joe Wright é muito "pesado" para divulgação nesse meio de comunicação. O órgão pede que as cenas de agressão sejam eliminadas para exibição na TV por terem sido consideradas excessivamente violentas. [As informaçãoes são da AdNews.]

No Brasil, a cada vez que se fala em controlar a publicidade na TV - inclusive de bebidas alcoólicas, como cerveja, que gozam de estranha liberdade para serem veiculadas a qualquer hora - alguém grita: "Censura". Seria? Não estaria na hora de alguém gritar "corta" para esse tipo de argumento que confunde publicidade com liberdade de imprensa?


terça-feira, 28 de abril de 2009

A complicada escolha das palavras

O artigo da ombudsman do New York Times desta semana, que tem o título acima, discute como a escolha de uma palavra mobiliza a redação de um jornal, e "demonstra os campos minados lingüísticos pelos quais jornalistas passam todo dia quando querem fornecer descrições precisas aos leitores".
Ela está falando na mudança na forma como o jornal classifica o sofrimento inflingido pela CIA ao prisioneiros da al-Qaeda. A reportagem descreve que os prisioneiros "tiveram que tirar as roupas e foram agredidos; ficaram mantidos acordados por 11 dias seguidos, algumas vezes com os braços acorrentadas ao teto; ficaram confinados em quartos escuros e passaram por simulações de afogamento". E como chamar isso: de "tramento cruel", "tramento brutal" ou simplesmente "tortura"? Para o governo Bush, eram técnicas "avançadas" de interrogatório.
O NYT começou classificando os interrogatórios de "cruéis", depois passou a chamá-los de "brutais", usando menos a palavra "tortura".
Segundo a ombudsman, alguns leitores acham que o jornal vem usando eufemismo, em vez de classificar como "tortura" o que ocorreu; outros achando que as medidas extremas eram necessários. Veja no Observatório da Imprensa.

Clube da Viola em festa

O combativo presidente do Clube da Viola, Orlando Queiroz, está convidando amigos e admiradores de cantorias a comemorar os dois anos do Projeto Cultural Quinta com Verso e Viola. A festa será no no palco do teatro Sesc Emiliano Queiroz, com os poetas cantadores José Cardoso e Jorge Macedo, "os mais representativos repentistas do Vale Jaguaribano, a região mais fértil em poesia cantada do solo alencarino", nas palavras de Orlando. O evento será no dia 30/4/2009, às 20h. Mais informações: (85) 9998 0827 - 8856 2190 -violanordestina@yahoo.com.br.

O martelo de José Cardoso

Aprendi a cantar sem professor,
Com a ajuda de Deus eu sou completo.
Você vem me chamar de analfabeto,
Exibindo um diploma de doutor.
No congresso em que eu for competidor
Você perde pra mim de dez a zero.
Finalmente eu lhe sou muito sincero:
Se deixar de cantar não sou feliz,
Ser poeta eu só sou porque Deus quis,
Ser doutor eu não sou porque não quero.


A décima de Jorge Macedo

Varo as noites fazendo serenata,
Escrevendo um poema à minha amada,
Companhia somente a madrugada
E as lágrimas da lua, cor de prata!
Vou deitar só no despertar da mata,
Passarinhos cantando e a luz do dia.
Com o hálito da brisa pura e fria
Acalento os meus sonhos de amor.
Sou boêmio, poeta e sonhador,
Meu suor traz o cheiro da poesia.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Affonso Romano e o oxímoro da arte

Confesso: eu nunca li nada do escritor e professor Affonso Romano de Sant'Ana, mas simpatizei de cara com ele na palestra "O problema da autonomia do sujeito na arte e na sociedade", na abertura da Semana de Humanidades Uece/UFC [post abaixo], pois ele começou dando um cacete federal em Michel Foucault, Jacques Derrida [tem que pronunciar derridá, se não, não vale] e Gilles Deleuze, os queridinhos de uma certa inteligentzia que ainda campeia pelas páginas dos jornais.
Nem quando era estudante eu gostava muito desse negócio de "a realidade é algo construído", como se a própria não existisse, portanto qualquer distorção tornava-se permitida. Alguns "professores" de jornalismo aproveitavam para dizer que a "verdade" não existia [nem a factual], pois tudo seria um produto da "linguagem".
Também nunca aceitei a tese do "relativismo", que vê como "manifestação de uma cultura, que tem de ser respeitada", mesmo quando isso implica a excisão, a infibulação ou a lapidação de mulheres. Affonso Romano bateu duro nesses dois pontos [ele não chegou a citar o exemplo das mulheres, que fica por minha conta]. Se em vez de jornalista tivesse me tornado um intelectual :), estaria combatendo na mesma trincheira dele, apesar da diferença de gerações [ele deve ser pelo menos uns 10 anos mais velhinho do que eu, pois disse ter visto os Beatles num concerto, quando eles ainda eram quatro].
Affonso Romano começou questionado se existe diferença entre uma ditadura como a do Irã, e uma sociedade democrática, como a Inglaterra, pois, em ambas os cidadãos são controlados: em uma, vigiados pelos aiatolás; na outra pelas câmeras onipresentes. Citou ainda o Patriotic Act, que permitia ao governo americano, sob Bush, vasculhar correspondências e listas de biblioteca para saber quem lia o quê - e comparou tudo ao Big Brother de George Orwell, no livro 1984. [Do BBB da Globo se falará abaixo.]
Deve ter sido também para horror alguns velhos comunista [sim, eles ainda existem] perdidos no tempo, ele pôr como equivalentes os governos da antiga URSS, da China e da Alemanha, sob o nazismo, como as sociedades que "suprimiram o sujeito ao máximo: o [homem] autônomo transformou-se em autômato", ao mesmo tempo em que perguntou: "Será que as sociedades ditas abertas, com a engrenagem do mercado, não estariam produzindo uma falta de autonomia, os indivíduos manipulados como autômatos?"
Admitiu que a geração dele, "de 40 anos atrás" estava "buscando uma utopia" que tem de ser revista "à luz do século XXI", e criticou filmes que continuam a romantizar a figura de Che Guevara. Chamou de "oxímoro" [contradição] a ação "revolucionária" que mata indiscriminadamente por "amor à humanidade"; e recitou seu poema: "As utopias são facas de dois gumes:/num dia dão flores,/noutro/são estrume". [Essa parte ele poderia ter pulado :)] E criticou a frase de Sartre: "O homem é livre para se comprometer", vendo-a como um convite à sujeição, portanto, um "oxímoro", repetiu.
Depois, passou a questionar diretamente a arte "pós-moderna", com seu "culto da fragmentação, do caótico, da apropriação".
"Pensar que um artista é mais livre que um engenheiro é uma irresponsabilidade", pois nem um nem outro pode fazer o "que bem entende", tendo, ambos de se sujeitarem a obrigações éticas: "Não há autonomia absoluta".
Disse que a história ocidental viu "transformações estéticas" na história da arte, desde quando o discípulo era louvado por bem copiar o mestre; passando pela fase em que se passou a admitir o "desvio", até se chegar à ruptura, o que, na época foi "estimulante". Mas que, de ruptura em ruptura, chegou-se a um "beco sem saída". "Uma coisa é a ruptura quando o sistema está organizado; se a ruptura passa a ser o sistema, vai-se romper com o quê?" [Cá entre nós, eu também nunca achei que um penico ou uma tampa de privada fossem obra arte.]
Para Affonso Romano, chegamos a uma época do "culto ao vazio, como se o vazio estivesse cheio" e perguntou por que a "superficialidade" e a "banalidade" nos fascinam tanto. Para ele, "o BBB [da Rede Globo] é a grande metáfora do nosso tempo, é a metáfora do vazio; as pessoas ligam a televisão para ver NADA".

New Yorker sob processo de 10 milhões de dólares

Integrantes de tribo da Nova Guiné movem ação de US$ 10 milhões contra revista americana New Yorker, devido a uma reportagem publicada em 2008, sob o título "Vengeance ours" (A vingança é nossa), do geógrafo ganhador de prêmio Pulitzer Jared Diamond. O Pulitzer é o mais prestigiado prêmio do jornalismo americano. Na matéria, Jared descreve brigas familiares intertribais que ocorreram durante décadas nas montanhas da Nova Guiné. Agora, Daniel Wemp, membro do clã Handa, está processando a revista, pedindo 10 milhões de dólares de indenização. Ele afirma que a reportagem acusava falsamente ele e um colega da tribo de "séria atividade criminal e assassinato". Wemp é apoiado pelo StinkyJournalism.org, projeto sobre a ética da mídia, com sede em Nova Yor. A New Yorker disse que apóia a reportagem de Diamond. Do blog do Knight Center for Journalism.

Affonso Romano de Sant'Ana contra o relativismo

"Até o princípio do século XX, havia certas certezas, certos paradigmas. A partir da modernidade, da teoria da relatividade, do Einstein, do teatro do absurdo, de Beckett e Ionesco, a partir dos questionamentos de Nietzsche, depois Focault e Derrida, os paradigmas entraram em colapso. Alguns artistas e muitas pessoas, ao invés de analisarem essas mudanças de paradigma, mergulham nisso de cabeça e irracionalmente. Acabam decretando que não existem princípios, não existe verdade, não existe sistema. Qualquer coisa é arte. Isso é um dos grandes equívocos do século XX." Do escritor Affonso Romano de Sant'Ana, em entrevista hoje no no O POVO, no caderno Vida & Arte. A crítica que ele faz às artes, pode ser estendida a quase tudo: da política ao jornalismo.
E tem mais: "A pergunta é: o artista é um cidadão acima de qualquer suspeita? Ele está acima da ética? Me parece que não. Nenhum profissional, em nenhuma área, com um mínimo de sentido de cidadania, pode se considerar acima da ética."

Pelo jeito, vai valer a pena ver a palestra dele "O problema da autonomia do sujeito na arte e na sociedade", hoje às 18h30min, na abertura da Semana de Humanidades Uece/UFC, no auditório da reitoria desta.

domingo, 26 de abril de 2009

Walt Disney


A Folha de S. Paulo [Ilustrada], traz na edição de hoje [26/4/2009] reportagem sobre uma biografia de Walt Disney [aqui, para assinantes]. O livro desfaz alguns mitos sobre o pai do Mickey e confirma outros. De fato, ele tinha uma personalidade tirânica, era anticomunista; não há provas que ele tenha sido antissemita. Mas, acima de tudo, segundo o livro, era um criador genial, capaz de produzir milhares de desenhos a mais para obter uma animação com movimentos realistas. O autor do livro - Walt Disney: o triunfo da imaginação americana - é Neal Gabler, que consultou milhares de documentos inéditos para escrevê-lo.

Se a memória não me trai, e ela sempre nos prega peças, a primeira obra que li foi um gibi do Mickey, em cuja história ele visitava uma tribo de índios. Eu devia ter uns seis anos, fazia uma viagem de trem com meu pai, e ele comprou a revista de um dos funcionários da ferrovia que passavam oferecendo as coisas mais diversas pelos corredores dos vagões.
Quando Disney morreu, em 1966, eu tinha 10 anos - e levei um choque -, pois achei que nunca mais veria um desenho feito por ele ou uma história inédita. Na minha compreensão infantil, eu via aquele homem, noite após noite, desenhando e escrevendo, sozinho, cada uma daquelas fantásticas histórias.
Um pouco mais crescido, passei para leituras mais "adultas", tornei-me admirador do Sr. Walker, mais conhecido como Fantasma, o espírito que anda, de seu amigo Guran [o pigmeu da tribo bandar], do seu lobo de estimação, Capeto, e do se cavalo banco, Herói. [A propósito, quando começaram a maldar dos super-heróis, Fantasma foi o primeiro a se casar, com a sua namorada, a srta. Diana Palmer; mas, por essa época, eu já não participava mais de suas aventuras.]
Hoje, quando vejo alguns pais condenarem jogos eletrônicos ou o uso computador, pois estes "desviariam" os filhos de coisas mais importantes, lembro que, quando criança havia a mesma lenga-lenga a respeito dos gibis. Felizmente, meus pais nunca proibiram; como eu tinha pouca grana, participava de uma feira de troca que ocorria, a cada domingo, antes do início das matinés do Cine Fernandópolis. Foi graças aos gibis que eu me tornei um leitor.

Como aprendi o português


Reli o belo conto/crônica de Paulo Rónai, “Como aprendi o português”, enfeixado no livro de mesmo nome [editora Globo, 1975]. Rónai conta como, na Budapeste de 1939, seu grupo de amigos estudava línguas “exóticas” e ele se sentia “humilhado” por estudar uma “fácil”: o português.
Começou pelo português de Portugal, até cair-lhe nas mãos um livro de poesia brasileira. Ele diz como passou a receber copiosa correspondência do Brasil depois de uma carta enviada ao jornal Correio da Manhã, do Rio. E como a publicação de alguns poemas, que ele traduziu para o húngaro [a única língua que o diabo respeita, conforme li em Budapeste, de Chico Buarque, que deve ter visto em outro lugar], nos jornais de sua cidade, levou um importante crítico a dizer que “o Brasil chegou-se mais perto” da Hungria.
Com o início da Segunda Guerra Mundial, o governo húngaro, pró-nazista, prende Rónai [filho de judeus] em um campo de trabalhos forçados. Ele consegue fugir para Portugal, tendo como objetivo chegar ao Brasil. Mas, o estudo da língua de Camões de nada lhe serve para conversar com os portugueses – o que o deixa profundamente frustrado –, ainda que lhe possibilitasse ler perfeitamente os jornais. Depois de seis semanas, embarca para o Brasil.
Veja a forma deliciosa como ele relata a sua chegada ao Rio de Janeiro.
“Cheguei uns vinte dias depois. Que alívio logo na entrada! O Brasil recebia-me com uma linguagem clara, sem mistérios. Ainda não desembarcara, e já não perdia nenhuma das palavras do carregador que, em compensação, perdeu uma de minhas malas. Entendi igualmente o funcionário da alfândega; e de tão satisfeito, não lhe rebati a surpreendente afirmação de que o português e o húngaro eram línguas irmãs. O deslumbramento continuou na rua, no primeiro táxi, no hotel. O idioma que eu aprendera em Budapeste era mesmo o português!”

sábado, 25 de abril de 2009

Demócrito Dummar

Hoje, 24 de abril de 2009, faz um ano que Demócrito Dummar, o presidente do O POVO, morreu. Dizem que não há pessoas insubstituíveis: discordo. Todas, de um modo ou de outra, o são, pois únicas, e Demócrito em um nível mais elevado. Estivemos ontem na missa em homenagem a ele. Um ano depois, a igreja Cristo Rei cheia.
Demócrito estava para muito além de ser um simples empresário da comunicação; era um jornalista com toda a força de sua alma. Basta ver as frases dele que O POVO publica na edição de hoje, no alto de cada página. Mas os editores esqueceram-se de uma, que é minha preferida: "A hierarquia é uma mesa redonda".
Assim ele tocava o jornal, sem impor suas opiniões, mas argumentando à exaustão. Procurava um ângulo novo, ouvia, perguntava com genuína curiosidade; muitas vezes o vi aceitar argumentos que lhe pareciam bons, mesmo quando esses vinham de repórteres jovens, pois ele não escolhia os interlocutores pela idade ou pelos títulos.
Recentemente, d. Lúcia (mãe de Demócrito) me contou que ele via, como a pessoa mais inteligente que ele conhecia, um dos caseiros do sítio dela, pela ligação, entedimento e a sensibilidade dele em relação à natureza, principalmente dos pássaros que lá habitam. Esse homem, que Demócrito admirava, nunca frequentou uma escola formal. Esse é o Demócrito, que nos suprendia a cada dia, e continuará a nos surpreender pela memória que todos guardaremos dele e que nos encarregaremos de distribuir, tentando emular a generosidade que era a marca mais profunda de sua personalidade.

Mas certamente, ele não ia querer tristeza, conto duas histórias diferentes que captam uma infinesimal parcela do modo como ele via a vida.

- No fim de 2007, quando já esta certo que deixaria a função de ombudsman, saí com três colegas de Redação, Gutemberg, Cláudio Ribeiro e Demitri Túlio para um bar copo-sujo, o Zé Maria, nas proximidades do O POVO. Devia ser umas 10 da noite, ligo para a diretora de Redação, Fátima Sudário, que ainda estava no fechamento do jornal, e ouço a voz do Demócrito: "É o Plínio?"; a Fátima, brincando: "Eles estão fazendo o bota-fora do Plínio do cargo de ombudsman"; Demócrito: "Onde é?, eu quero ir lá". Não se passam cinco minutos Demócrito encosta o carro, desce com d. Vânia (a companheira inseparável) com vestido de festa, para onde iriam ou de onde estavam vindo. O Zé Maria, meio atarantado enxugava as mãos no avental e procurava uma cadeira, que não estivesse quebrada, para oferecer a d. Vânia. Iniciamos um pedido de desculpa, pelo que parecia um transtorno a d. Vânia e ela sorrindo: "Que nada, eu já estou acostumada". Ficamos por lá um bom par de horas. Depois disso, Demócrito sempre perguntava: "Quando vamos voltar ao Zé Maria?"

- Em 2006, o artista plástico Yuri Firmeza conseguiu enganar os jornais da cidade com um fictício artista plástico japonês o Souzareta Geijutsuka. Foram feitas matérias, anunciada a sua suposta exposição, etc. Até que o Yuri revela a farsa e explica que o fez como uma espécie de vingança contra os jornais que não dariam importância aos artistas locais. Eu era ombudsman e estava de férias quando o fato aconteceu. Na volta, ao entrar na Redação observo a revolta de vários colegas por terem sido enganados, alguns não se conformavam, queriam encerrar o assunto. O POVO sustenta o debate por alguns dias. Encontro Demócrito e brinco como ele: "Viu o que fizeram com o seu jornal?" E ele: "Você viu que coisa interessante? Eu acho que devíamos mantido essa discussão por mais tempo". Eu: "Demócrito, você deve ser o único dono de jornal do mundo que está à esquerda de sua Redação".

De fato, as pessoas são insubstituíveis, mas a verdade inevitável é que a vida segue, e não poderia ser diferente. O que nos resta é tentar fazer justiça à memória de Demócrito, dando continuidade à sua obra: O POVO.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Memória e devir

É o título da Semana de Humanidades Uece/UFC, que começa na segunda-feira [27/4/2009]. A abertura será às 18h, no auditório da reitoria da UFC, com palestra do escritor Affonso Romano de Sant’anna. A programação completa está aqui.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Twitter vira campo de batalha

entre o colunista da revista Veja, o parajornalista Diogo Mainardi, e o apresentador do CQC, Marcelo Tas. O motivo da briga parece ter sido a menção que Mainardi fez ao acordo que Tas mantém com a Telefônica para a divulgação de um serviço. O parajornalista teria chamado Tas de "homem sanduíche do século XXI", referência às pessoas que andam nas ruas com placas de publicidade colocadas na frente e nas costas, ou seja publicidade colada ao corpo [noves fora, pilotos de Fórmula 1 e praticantes profissionais de qualquer esporte]. Tas revidou dizendo que Mainardi estaria com inveja. Veja mais no Adnews.
Tas eu não sei qual apito toca, mas Mainardi é um provocadorzinho semiprofissional que ganha a vida com factóides. [Aliás, nem sei porque faço esse post: de qualquer modo, pouca gente vai ver mesmo :)]

Sincronicidade do Sagrado

Vasco Arruda é um sujeito que entende muito de religiões, de muitas. Mas não pensem que ele é um proselitista ou um intolerante. Ele acolhe com igualdade todas as manifestações do "Sagrado", que é como ele nomeia o mistério que outros chamam de Deus, pois este nome teria uma conotação restritiva e aquele amplificadora. [A propósito, ele também tem paciência com alguns profanos amigos. :)]
Pois bem, Vasco é um estudioso, já deu aulas de História das Religiões, escreveu livros e agora resolveu fazer um blog, o Sincronicidade. Se você se interessa pelo assunto, lá encontrará um cara sem proeconceitos, com quem poderá dialogar sobre o assunto.

Joaquim Barbosa X Gilmar Mendes

Vocês devem ter visto o pau que comeu entre os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes [presidente], do Supremo Tribunal Federal (STF). Mendes acusou Barbosa de fazer julgamentos diferentes, conforme a classe dos envolvidos. Seguiu-se o "diálogo":
Barbosa: "V. excelência está destruindo a Justiça deste país e vem agora dar lição de moral a mim? Saia à rua ministro Gilmar, saia à rua, faça o que eu faço".
Mendes: "Eu estou na rua ministro Joaquim"
Barbosa: "V. excelência não está na rua não, vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro" E ainda sapecou: "V. excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas de Mato Grosso [referência ao estado de origem de Gilmar Mendes]. Veja o vídeo aqui.
Não é a primeira vez que se acusa o ministro Gilmar Mendes de ser um perigo ao Judiciário. Em 8 de maio de 2002, o jurista Dalmo de Abreu Dallari, quando Mendes foi indicado ao TST pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, escreveu um artigo para o jornal Folha de S. Paulo. No texto, Dallari disse que a presença de Mendes no TST poria "em risco sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional".
Veja a reprodução do artigo de Dallari [grifei]:
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Folha de S. Paulo 8/5/2002

Degradação do Judiciário
DALMO DE ABREU DALLARI

Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais. Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.
Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República [Fernando Henrique Cardoso], com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica. Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.
Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente - pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga -, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.
É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção. É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo [Gilmar Mendes] especializou-se em "inventar" soluções jurídicas no interesse do governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique, o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União, aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa de anular a demarcação de áreas indígenas. Alegando inconstitucionalidade, duas vezes negada pelo STF, "inventaram" uma tese jurídica, que serviu de base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em que se baseavam as demarcações.
Mais recentemente, o advogado-geral da União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem decisões judiciais. Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais, contra atos de autoridades federais. Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um "manicômio judiciário".
Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no "Informe", veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado "Manicômio Judiciário" e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que "não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo".
E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na "indústria de liminares".
A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou a revista "Época" (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público - do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários - para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na "reputação ilibada", exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.
A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou "ação entre amigos". É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática.

Dalmo de Abreu Dallari, 70, advogado, é professor da Faculdade de Direito da USP. Foi secretário de Negócios do município de São Paulo (administração Luiza Erundina). Link para o artigo aqui [para assinantes]

TV Cultura: nova marca



Não mudou muito em relação à antiga, mas esta é a nova marca da TV Cultura, repaginada para ficar "mais leve".

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Rosa da Fonseca: 60 anos


As mulheres costumam esconder a idade, mas nem todas. A radical crítica Rosa da Fonseca comemorá os seus 60 anos em grande estilo. A festa, com convite público, vai ser animada por mais de 20 músicos, amigos da aniversariante, entre eles Fausto Nilo, Téti, Manassés e Eugênio Leandro. Rosa, que já passou por várias fases militantes, sempre na esquerda, hoje, na Crítica Radical, é arauto do "fim da política", candidata a coveira do capitalismo, e nos desafia a "pensar o impensável" em direção à "sociedade da emancipação humana".
[Me passa pela lembrança a quantidade de vezes que Dorian Sampaio abria a porta da pequena redação do JD, o braço passado pelos ombros de Rosa, invariavelmente lembrando quando ambos eram jovens, para dizer que ele era a "a moça mais bonita" de sua época.]

A festa será no dia 24/4/2009 [sexta-feira], na av. da Universidade, 2158 [ao lado do Teatro Universitário]. Contatos: (85) 8816 6253 - 3081 2956 - 3091 0861