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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Balançando o sedém [VI]

Tem mais uma da viagem Guaraciaba do Norte/Viçosa do Ceará que estava esquecendo de contar. Entre um percurso e outro, correndo o dial digital do rádio, parei em uma emissora, não sei de qual cidade, em que o locutor tocava Nelson Gonçalves para homenagear o seu aniversário de nascimento. Como dizia o speaker se "Nelson estivesse entre nós", ele teria completado 90 anos no dia 18 de abril. Depois de uma música, daquelas que o cantor quase estoura as caixas de som, o cara se sai com essa: "Isso é que é cantor; isso é que é voz, e voz de homem, não aquele negócio de Caetano Seboso, que não canta nada e ainda beija boca de homem". Continuou esculachando Caetano Veloso por um bom par de minutos e emendou: "Hoje pra ser cantor basta balançar o sedém na televisão; balançou o sedém, já está fazendo sucesso; no tempo do rádio não, precisava ter voz". Impagável.
[Algum eventual leitor não-cearense que não saiba o que é "sedém", ainda que dê para imaginar, sugiro procurar um bom dicionário de termos da terra de Alencar.]

domingo, 19 de abril de 2009

Soprando o bafômetro [V]

No volta, uma blitz do Detran e Cia. nos para nas proximidades de Tianguá. Documentos, etc., e a funcionária do Detran, muito gentil: "Nós também estamos fazendo o teste do bafômetro, o sr. quer fazer?" Eu quase perguntei: "É convite ou intimação?" Mas numa hora dessas é melhor não brincar, pode render "desacato à autoridade". :) Ok, lá fui eu. Formou-se uma fila: uns três da minha frente, fui prestando atenção. O negócio tem uma técnica, não é ir soprando de qualquer jeito, não. O sujeito que fez o teste antes de mim errou três vezes e já estava ficando meio nervoso. Portanto, vou ensinar a você como fazer; caso seja parado em uma blitz, mostre-se um profissional do bafômetro: encha o pulmão de ar e sopre com força, e sem parar, de cinco a sete segundos. O técnico vai avisar: "Pode parar": é quando aparece a marcação na maquineta. [A propósito: eu "passei".]
Mas quem sofre mesmo é motociclista. Durante a blitz fica uma espécie de sentinela avançada vigiando; de vez em quando ele grita: "Lá vem moto!", e o pelotão se mobiliza para não deixar passar nenhuma.

Igreja do Céu [IV]

Depois, subimos os mais de 300 degraus para chegar ao palco de Igreja do Céu [tem como ir de carro, mas dei uma de valente, não quis fazer feio para a minha mulher, e o resultado é que estou com a batata da perna em pandarecos]. É uma via-crúcis, quase literal, em cada "descanso" uma das 14 estações da cruz de Cristo entalhadas no cimento. A vista deslumbrante compensa o esforço.
Fui para ver o grupo Choro das 3 [meninas de São Paulo] e o Época de Ouro [marmanjos do Rio]. Por entre as mesas, lá estava o Serginho, junto com um bando de meninos da Associação vendendo o CD do Guarani Choramingando: R$ 5,00. Barato, eu o disse; e um moleque, bem ligeirinho: "Então compra o DVD, que é 10". Pedi um autógrafo [no CD], ele escreveu com letra caprichada: "De Serginho para Plínio", brá e fim.
Terminados os discursos [tipo espada: longo e chato] tocou a Orquestra de Viçosa do Ceará, após vieram as três choronas. Por essa hora, lá pelas 10 da noite, uma neblina começou a se formar na altura dos postes de iluminação; as meninas tocando, a neblina se adensando, até não se enxergar um metro à frente. Eu vou te contar: é muito bonito ver aquilo. Só que atrás da neblina, veio uma chuvinha fina, que engrossou, depois afinou de novo. As meninas cantando, a chuva caindo; uns ficaram lá firmes embaixo d'água, nós, com mais uma porção de gente, corremos para a Igreja do Céu, que os padres generosamente deixaram aberta.
Resolvemos descer a escada sob a chuva fina, sem ver o Época de Ouro [sei que perdemos um grande espetáculo]. Fomos segurando pelo corrimão, enquanto uns moleques, exibindo a boa forma física [e desafiando o perigo de escorregar], desciam às carreiras.
Olha, o festival Mel, Chorinho & Cachaça de Viçosa do Ceará tinha muito mais coisas interessantes. Mas só lhes conto o que pude ver.

Guarani Choramingando [III]

Primeiro a obrigação, depois a devoção. De Guaraciaba fui a Viçosa do Ceará, onde transcorria o festival "Mel, Chorinho e Cachaça". É sempre bom voltar a Viçosa: clima ameno, uma vida tranquila [aparentemente, para quem chega de fora]. Belos lugares para se ver; ideal para se tomar um vinho em boa companhia. Só deu para ficar no sábado [no domingo teria Dominguinho]. Vi, na praça da Matriz, o Guarani Choramingando, grupo formado por meninos e meninas entre 12 e 16 anos de idade. São fantásticos: é um prazer imenso ouvi-los e emocionante ver o amor que eles têm pela música e pelos seus instrumentos. Marina Martins [flauta soprano] é a que fala pelo grupo; Bruna Whelita [cavaquinho] também fala um pouco; os meninos: Erinaldo Alves [violão], Bruno da Silva [flauta transversal], Luiz Miguel [ganzá] e Sérgio Lima [pandeiro] ficam quietos, mas tocam pra dedéu. O Serginho, de 12 anos, é um número à parte, pela destreza com que toca o seu instrumento e pela simpatia.
O grupo Guarani Choramingando é resultao do trabalho da ONG Associação Comunitária do Guarani, de Campos Sales [CE], que desenvolve o projeto "Construir a cidadania com arte educação e cultura". Pelo jeito, vem dando certo, e muito. Os contatos deles são: (88) 3533 1463 e assguarani@yahoo.com.br .

- Na foto da organização do evento [da esq. para a direita]: Serginho, Luiz Miguel, Marina, Bruno, Bruna e Erinaldo.

"O Teixeira" [II]

Após o seminário, tivemos um agradável encontro no restaurante "O Teixeira" [que também tem uma pousada, onde fiquei]. Como não podia deixar de ser, rolaram causos e piadas sobre políticos. Vou contas duas delas, sem revelar os autores:
  • Dois vereadores trocam insultos no plenário
  • - V. excelência é um descalcificado.
  • - E o senhor é um ignorante, é "desclassicado" que se diz.
  • - Não, é descalcificado mesmo, pois faz 10 anos que sua mulher lhe bota chifre e ele ainda não nasceu.

A outra, no mesmo estilo:

  • - V. excelência vem aqui falar dos outros, mas rouba cotidiariamente.
  • - "Cotidiariamente" não, seu ignorante, o certo é "cotidianamente".
  • - Cotidianamente se o sr. roubasse uma vez por ano, mas o sr. rouba é todo dia.

[Obviamente, qualquer semelhança com a vida real terá sido mera coincidência.]

A propósito: o Teixeira, que não tem nada a ver com o que foi dito acima, pois nem político é, faz um ótimo churrasco e melhor ainda tilápia frita. Ele aprendeu as artes de restauranter nos mais de 20 anos em que trabalhou no ramo em São Paulo e no Rio. No início dos anos 1990 resolveu voltar à sua terra para aplicar no seu negócio o aprendizado que teve na escola prática da vida. Simpático, ele está sempre à disposição para dois dedos de prosa.

Guaraciaba do Norte [I]

"Quais os rumos do dinheiro de impostos que todos pagam?" Com esse mote iniciou-se, na sexta-feira [17/4/2009] o curso Controle Social das Contas Públicas, em Guaraciaba do Norte. O evento de abertura, organizado por Francisco Baltazar, foi realizado no Teatro João Barreto [instituição dirigida por ele]. Estiveram presentes mais de 100 alunos da Universidade Vale do Acaraú [UVA] e a meta de é reunir 200 estudantes em torno do assunto. O curso a distância, organizado pela Fundação Demócrito Rocha [FDR] e Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Ceará [TCM] já está com 33 mil inscritos. Na sua cidade de origem, Baltazar quer complementar as disciplinas oferecidas a distância com uma série de seminários, que resultarão em créditos para os estudantes da UVA.
Neste primeiro seminário, o presidente do TCM, Ernesto Sabóia, defendeu a necessidade de mais auditores para fiscalizar as contas públicas e disse que a sociedade tem de dar a sua contribuição. Por isso, disse, tomou a iniciativa de propor o curso à FDR, de modo a capacitar o cidadão para melhor exercer seu papel fiscalizatório. Eu falei sobre a importância do jornalismo, da necessidade de transparência das contas públicas, e da luta pelo direito ao acesso às informações públicas, temas do fascículo que escrevi para o curso.
A propósito, os professores Palmira Soares [vice-reitora da UVA] e Leoman Gomes [pró-reitor de extensão] deram uma informação que, confesso, me surpreendeu: a UVA, em Guaraciaba, tem 1.300 alunos da própria cidade e de outras da região da Serra da Ibiapaba.
[Na foto, a bela fachada do Teatro João Barreto]

domingo, 5 de abril de 2009

Comunidade

A maioria dos participantes do curso Controle Social das Contas Públicas que chegar a este blog, já saberá. Mas tenho de registrar a iniciativa do Francisco de Assis Soares que abriu uma comunidade no Orkut para debater o tema.
[Clique em um dos marcados abaixo, por exemplo: "respostas" ou "controle.social", para ver todas as respostas da aula presencial sobre Jornalismo do curso Controle Social das Contas Públicas.]

A verdade de cada um

P: Depois de eu ter falado da diferença entre a verdade factual e a "verdade de cada um", dando exemplo de um torcedor do Ceará e outro do Fortaleza - que nunca chegariam à mesma conclusão sobre o mesmo jogo -, um participante pergunta qual seria a "verdade mais lógica" ou se seria possível uma "verdade mais consensual".
R: A verdade de cada um, depende de nossas convicções: se uma pessoa é cristã, para ela existe um único Deus; se segue alguma religião oriental, os deuses poderão ser vários. Essa é a verdade de cada um. Quanto ao torcedor do Fortaleza e do Ceará, uma "verdade consensual", por exemplo, poderia ser o resultado do jogo. Esta, também, é uma verdade factual, pois comprovável. Um ou outro pode dizer que o juiz roubou, etc., mas o resultado que vai para a súmula é o que valerá - e poderá ser comprovado.

Jornalismo investigativo

P: Teles pergunta o que é jornalismo investigativo.
R: Alguns jornalistas rejeitam o termo "jornalismo investigativo" por julgarem que todo jornalismo necessita de certo grau de investigação. Outros, como os quais concordo, dizem que o termo é procedente, pois aponta as reportagens mais aprofundadas exigem grau elevado de investigação e pesquisa, e abordam com mais propriedade os diversos aspectos em torno do assunto que estão cobrindo.
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Mídia alternativa

P: Edmundo, de Paracuru, pergunta se "é possível avaliar a importância da mídia alternativa impressa (Opinião, Movimento, Pasquim, etc., frente à grande mídia".
R: Os jornais que você cita, além de terem papel fundamental na redemocratização do país, serviram de modelo para a modernização da "grande mídia", termos de design [o processo artístico e da diagramação dos jornais] e também quanto aos assuntos que eram considerados "tabus" e que passaram a ser abordados.
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Blog

P: Ivan Melo pergunta se existe "eficácia" no blog, se não ficaria "muito restrito".
R: Bom Ivan, como você pode ver, depois de muito resistir, caí na rede. Independentemente disso, sempre achei que qualquer meio de comunicação, por mais "restrito" que seja, tem a sua importância. Um texto interessante sempre encontra o seu destino.
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Acompanhamento

P: Iran Ribeiro quer saber por que a imprensa não acompanha os casos de corrupção "do início ao fim" do processo.
R: Esse é outro dos problemas dos meios de comunicação. O escândalo de hoje enterra o de ontem. De fato, falta um método à imprensa para acompanhar, não apenas os casos de corrupção, mas todos aqueles de interesse público.
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Templos religiosos

P: Um dos participantes pergunta por que é permitida a "manipulação das mídias" pelos templos religiosos.
R: Na verdade, os "templos religiosos", católicos ou evangélicos são hoje donos de várias "mídias". Isso remete a outro problema: a forma como são concedidas as concessões para rádios e TVs no Brasil.
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Correção

P: Luciano, de Croatá, pergunta por que a imprensa ao fazer uma denúncia [de fraude, por exemplo], que não se confirma, deixa de fazer o reparo posterior.
R: A imprensa comete vários erros e equívocos. Um deles, é não dar o mesmo destaque à correção de um erro, que dera à informação [equivocada] original.
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Liberdade da Imprensa ou da empresa?

P: O professor Cândido, de Maracanaú, pergunta se existe liberdade de imprensa ou da empresa [de comunicação].
R: O que eu sempre respondo a perguntas como essa é o seguinte: o jornalismo, com qualquer outra profissão, está sujeito a pressões: da empresa, do poder econômico, do poder religioso, dos políticos, das fontes, daqueles que são personagens da matéria, etc. Nesse jogo e pressões e contrapressões, sobra um bom espaço para a genuína liberdade de imprensa.
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Rádios comunitárias

P: Jorge Macedo apresenta como "problema grave" o uso de rádios comunitárias, principalmente no interior, por políticos.
R: De fato, muitas dessas rádios de baixa potência caíram nas mãos de políticos, infelizmente e indevidamente. Um fórum interessante para debater o assunto é a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), mas cujo blog está desatualizado. Sugiro pôr no Google "rádios comunitárias abraço", que aparecerão algumas seções estaduais com as informações atualizadas. Outra boa fonte para discutir o tema é o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), que distribui um boletim gratuito, que é o melhor clipping sobre comunicação que se pode obter na rede.
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Opinião pública

P: Em que medida o "senso comum" interfere na opinião pública ou são a mesma coisa? [Ângelo Santos]
R: A opinião pública pode ser a "média" do que pensa a sociedade ou sua visão majoritária a respeito de algo [coisas muito difíceis de quantificar]. Portanto, o "senso comum" e "opinião pública" poderiam ser equivalentes. Entretanto: a) alguns teóricos defendem que os meios e comunicação interferem fortemente ou mesmo podem dirigir a opinião pública; b) alguns outros [principalmente alguns jornalistas] dizem que os meios de comunicação apenas "refletem" a opinião pública; c) e há os que reconhecem que a influência dos meios de comunicação na formação da opinião pública mas entendem que essa não é determinante, havendo vários outros fatores a considerar.
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Sensacionalismo

Participante pergunta sobre o sensacionalismo, se isso serviria para manter a sociedade "não crítica".
R: O sensacionalismo é um forma de chamar a atenção para o grotesco, o "inusitado"; uma das técnicas usadas é ampliar um detalhe sem importância de modo a chamar a atenção do leitor, ouvinte ou telespectator. Muitas vezes "notícias" desse tipo são meras peças de ficcção. Esse tipo de "jornalismo" tem muito pouco a oferecer ao verdadeiro interesse público.
[Resposta que não tive tempo de dar na aula presencial a respeito do fascículo sobre Jornalismo que escrevi para o curso Controle Social das Contas Públicas. Quem quiser ver todas as respostas, basta clicar em um dos marcados abaixo, por exemplo: "respostas" ou "controle.social"]

Controle social


Dei aula presencial ontem - para cerca de 300 alunos - do curso Controle Social das Contas Públicas. O projeto, por meio de fascículos encartados no O POVO, é da Fundação Demócrito Rocha (FDR) e do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-CE). O curso já tem 31 mil participantes e as inscrições continuam abertas. Das muitas perguntas feitas, muitas não deu tempo de responder, o que vou fazer por aqui, nas postagens seguintes. [Eu com o microfone, o presidente do TCM, Ernesto Sabóia, e a professora Adísia Sá, coordenadora do curso.]